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sábado, 26 de junho de 2010

As Duas Realidades Kantianas...

Até agora pudemos perceber que Kant se aventura em considerações acerca do conhecimento com o fim de traçar precisamente os seus limites; ou seja, separar aquilo que é do alcance da Razão daquilo que não é do seu alcance.

Toda esta investigação filosófica, como sabemos, surgiu na esteira da crítica de Hume sobre a metafísica. Logo, o objetivo de Kant é mostrar se a metafísica é ou não um conhecimento válido como é, por exemplo, o conhecimento científico cujas afirmações, na forma dos juízos sintéticos ou analíticos, podem ser verificadas na realidade ou derivadas de regras gerais. Todavia a Lógica, a Matemática e a Geometria, com suas afirmações que aparecem exclusivamente na forma de juízos analíticos, não trazem nenhuma informação nova, sendo suas verdades óbvias e/ou irrefutáveis.

Mas e o conhecimento Metafísico? Aquele que afirma a existência dos conceitos em si mesmos? Da causalidade em si mesma? Dos objetos em si mesmos? Enfim, de um mundo em si mesmo independente do sujeito? Este mundo metafísico ficará em suspenso na medida em que, segundo Kant, não é possível construir os mesmos tipos de juízos sintéticos acerca dele, assim como é possível fazer com relação à ciência. No entanto, estas conjecturas nos levariam muito longe do nosso objetivo. Neste momento veremos como o mundo se separa em duas realidade possíveis para Kant.

A sensibilidade possibilita as percepções. Estas se apresentam ao entendimento que cria afirmações gerais sobre elas na forma dos juízos, que podem ser à priori ou à posteriori, que podem ser analíticos ou sintéticos. Esta generalização só existe graças à articulação da Razão Pura. O mundo resultante deste processo, o da percepção seguido da abstração e da afirmação, é chamado, por Kant, de Mundo fenomênico, ou simplesmente de Fenômeno. A concepção de Fenômeno envolve, na crítica kantiana, tudo aquilo que se apresenta à percepção e que é condicionado pelas formas puras, à priori, da sensibilidade: o Espaço e o Tempo.

Portanto o Fenômeno não pode ser a cadeira em si mesma, ou a mesa em si mesma, ou o professor em si mesmo etc, mas aquilo que se apresenta a nós na forma de cadeira, de mesa, de professor etc. O Fenômeno não é nenhum objeto tomado em si mesmo e independente do sujeito que o observa. Mas, dependente da observação do sujeito, o Fenômeno só existe à posteriori. Ele só existe na medida em que existe, antes dele, um Sujeito em geral ou um sujeito em particular, que cria a possibilidade da existência deste objeto quando o percebe. O Mundo Fenomênico é à posteriori, isto é, depende da existência anterior de um sujeito que o percebe, que o encaixa em conceitos do entendimento e que cria juízos acerca dele. Esta é a primeira realidade kantiana, uma realidade à posteriori.

Quando falamos em fenômeno kantiano, ou mundo fenomênico kantiano, estamos nos referindo fundamentalmente às percepções. Mas poderíamos muito bem nos perguntar: “O que, de fato, percebemos?”. A resposta de Kant é dada categoricamente em favor do fenômeno. “Percebemos tão somente os fenômenos.”. Porém, se falamos em percepções diversas, faz sentido imaginarmos que existam objetos, em si mesmos (independentes do sujeito), que causam os fenômenos. São necessários, portanto, dois elementos para a efetivação de uma percepção: um “sujeito” e um “objeto”. Na verdade, toda percepção é uma relação entre um sujeito que observa e um objeto que é observado. Se tenho a percepção de uma cadeira, então eu digo que existe uma relação (OBSERVAÇÃO) entre um sujeito (EU) e um objeto (CADEIRA) - desta relação sai o fenômeno que é expresso pelo juízo sintético “Julgo ver uma cadeira”.

Mas o que seria esse “objeto” que só percebo como fenômeno? Supostamente ele deve existir em si mesmo já que, sem ele, a relação de observação ficaria incompleta. No entanto ele não está diretamente ao alcance do sujeito (sem passar pela relação da observação), sem ser antes um fenômeno. Este objeto em si mesmo (objeto de conhecimento da Metafísica) e que Kant chama de coisa em si, só é mencionado como condição de possibilidade lógica do fenômeno e não como algo que podemos saber, ver ou conhecer de qualquer forma. Em outras palavras, a Razão somente supõe a existência dos objetos em si mesmos, mas não pode provar esta existência já que a coisa-em-si não chega diretamente nem à sensibilidade nem ao entendimento.

É necessário, portanto, que pensemos em algo que seja a origem primeira das sensações diversas, como a sensação de uma flor, de uma cor, de um som e assim por diante, mas não podemos provar que este algo exista. Não podemos saber o que seja, conhecer uma flor, uma cor, um som tomado-os em si mesmos, isto é, independentemente da observação que recai sobre eles. Quando sentimos um determinado cheiro, quando observamos um determinado objeto ou quando ouvimos um determinado som, estamos realizando todo aquele processo de conhecer descrito por Kant. Estamos trabalhando com os fenômenos, com as representações do mundo, e não com os objetos em si mesmos, aos quais não podemos ter acesso senão por meio destas representações que criamos ou obtemos.

Na medida em que a coisa-em-si é aquilo que é em si mesmo, independente do sujeito, e na medida em que a Metafísica é a ciência do em si, das coisas que não se apresentam à sensibilidade, pois se o fizessem seriam fenômenos e não coisas-em-si, então é justo afirmar que a coisa-em-si é o objeto de estudo da Metafísica. A questão que iniciou toda a investigação kantiana acerca do conhecimento era aquela que se debruçava sobre a possibilidade de um conhecimento metafísico. Portanto a Metafísica não se refere a nenhum tipo de conhecimento que se ligue aos conceitos ou ao Entendimento; nem tampouco pode ser um conhecimento que se ligue às formas espaciais ou temporais ou à Sensibilidade, já que tanto o Entendimento como a Sensibilidade ligam-se ao domínio do fenômeno.

Esta é a segunda realidade kantiana, uma realidade inatingível ao sujeito, uma realidade que aparece logicamente antes dele e que só pode ser deduzida como mera possibilidade. Esta é a realidade à priori da Metafísica. Logo, a conclusão de Kant é: se a Metafísica é algum tipo de conhecimento, provavelmente não é um conhecimento muito útil ou, de qualquer forma, atingível ou representável.

Kant e o Entendimento...

Após receber as diversas percepções que o sujeito obtém, graças às condições à priori, ou puras, da sensibilidade em geral (o Espaço e o Tempo), estas percepções são enviadas para a estrutura do Entendimento. Assim como a sensibilidade possui essas duas condições à priori, já estudadas, também o entendimento irá possuir uma estrutura interna (uma sub-estrutura), que igualmente existe à priori no sujeito comum, encarregada de receber as diversas percepções sensíveis e organizá-las segundo certos critérios. Enquanto a Sensibilidade em geral fornece as condições para as percepções, o Entendimento em geral as classifica segundo suas qualidades, universalidade, particularidades, causalidades, finalidades etc.

Com a organização propiciada pelo Entendimento, o sujeito se vê em condições de criar abstrações acerca das diversas observações particulares propiciadas pela percepção. Estas abstrações são os chamados conceitos, ou Idéias, que não se referem a nenhum objeto particular. É graças a essa capacidade de criar generalizações, de poder trabalhar com conceitos puros, que o homem se vê livre das condições ambientais particulares que o cercam. Ele consegue falar do Tempo em geral e não apenas da hora que passou, ele consegue falar do Espaço em geral e não apenas do lugar que seu corpo ocupa num dado momento. É graças ao conceito que o homem articula intelectualmente as percepções, de modo a criar relações entre elas, como relações de causalidade, de quantidade, de qualidade.

Também neste caso percebemos que os conceitos não estão no mundo, mas numa capacidade intelectual do sujeito, nas estruturas internas do seu Entendimento. A estrutura do Entendimento, assim como a da Sensibilidade, precisa do ‘Sujeito em geral’ para existir, no entanto ela existe antes (de maneira à priori) no ‘sujeito particular’. É graças à capacidade do Entendimento, por exemplo, que podemos pensar no Átomo, ainda que nunca tenhamos tido a oportunidade de ver um. Também é graças ao Entendimento que somos capazes de imaginar as grandes distâncias que separam as estrelas no céu, ainda que à primeira vista elas pareçam estar separadas entre si por apenas alguns poucos centímetros.

A articulação entre a estrutura da Sensibilidade e a do Entendimento é fornecida pela Razão Pura; juntas, as três estruturas produzem um conhecimento geral ou particular. Separadas, perdem todo o sentido funcional e se tornam absolutamente inoperantes. O que é importante de ser ressaltado na filosofia kantiana é que todo o conhecimento é, na verdade, o resultado da capacidade de julgar. Para realizarmos julgamentos sobre as diversas situações do mundo, é necessária a criação e a articulação de juízos. Por sua vez, os juízos são afirmações declarativas a respeito de um dado evento, fenômeno ou situação. Por exemplo: “Julgo que o resultado da soma de 1 e 1 seja 2”; “Julgo que eu esteja doente”; “Julgo que o céu é azul”; “Julgo que aquele homem seja o assassino”; “Julgo que eles sejam amantes e que se encontram na calada da noite para que ninguém os perceba e, assim, permaneçam no protetor silêncio do anonimato”; e assim por diante.

Neste sentido, vale a pena lembrar a distinção entre à priori e à posteriori que, no âmbito do discurso, aparecem nas formas respectivas: juízo analítico e juízo sintético. Os juízos analíticos são proposições que não necessitam, por assim dizer, de qualquer comprovação empírica. Portanto, todos os juízos analíticos são à priori, ou seja, são a expressão de uma verdade óbvia ou irrefutável que se mostra pela linguagem. Por exemplo: “Aquela mulher é do sexo feminino” ou “O resultado da soma dos ângulos internos de qualquer tri-ângulo é sempre 180º”. Como se vê, não é necessário, se tomarmos apenas o que é dito nas afirmações acima, realizar uma experiência qualquer para nos certificarmos das respectivas verdades internas destas afirmações. Por sua vez, os juízos sintéticos são naturalmente à posteriori, na medida em que são expressões cuja verdade necessitam de uma confirmação por meio da experiência. Nos juízos sintéticos, as verdades das declarações não decorrem naturalmente como nos juízos analíticos.

Assim, quando nos referimos às verdades universais e necessárias da matemática, da geometria, da lógica, utilizamos os juízos analíticos que, por sua qualidade mesma (universalidade e necessidade), se dão a este fim. No entanto, quando nos referimos aos eventos corriqueiros do mundo, às experiências e às sensações particulares, invariavelmente fazemos uso de juízos sintéticos que, por serem à posteriori, apresentam uma situação cuja verdade pressupõe a verificação. Este é o campo das ciências naturais como a Física, a Biologia, a Química etc, cujas afirmações aparecem na forma de juízos sintéticos.

O Espaço e o Tempo...

Vimos como o filósofo de Königsberg prepara o terreno para a sua teoria acerca do conhecimento. Ele inicia apontando para o problema do dogmatismo metafísico na filosofia, que só pôde perceber graças à ajuda do filósofo David Hume; em seguida, ele inverte o jogo filosófico dizendo que devemos buscar as condições puras de possibilidade para todo o conhecimento válido - e não tentar conhecer os objetos em si mesmos, já que isto seria assumir um certo tipo de dogmatismo. A última coisa que vimos é que foi no Sujeito do Conhecimento que Kant encontra estas tais condições puras, mais precisamente no Sujeito Transcendental, que, somado ao Sujeito empírico, propicia o fenômeno do conhecimento. Agora vamos ver como se dão as primeiras condições à priori, puras, para o conhecimento.

Kant divide o Sujeito Transcendental em três estruturas que se superpõem uma à outra, como se fossem as camadas de um bolo: a estrutura da sensibilidade, do entendimento e da razão pura. A estrutura da sensibilidade nos permite conhecer por meio das percepções sensíveis; a estrutura do entendimento nos permite conhecer por meio das categorias gerais (conceitos ou idéias), nas quais encaixamos o que apreendemos do mundo; a estrutura da razão pura comanda as duas primeiras estruturas, criando uma relação entre elas. Por enquanto, vamos estudar somente a primeira estrutura: a da Sensibilidade em geral (pura ou Transcendental).

Quando percebemos um objeto, como uma flor, um quadro, uma pessoa, um animal, um carro, o que cada um destes objetos tem em comum? Esta é a pergunta que Kant se propõe para descobrir o que é essencial a toda percepção e o que não é. Será essencial, portanto, aquilo que for necessário a qualquer percepção; e não será essencial aquilo que variar de objeto para objeto, aquilo que for particular. Concluímos com ele que cores, tamanhos, formas, lugares, cheiros, densidades, espessuras, peso, massa etc não são essenciais para uma percepção pura, pois estas qualidades variam de objeto para objeto: posso ver uma rosa branca da mesma maneira como posso perceber uma rosa vermelha. A rosa branca pode ter menos pétalas que a vermelha. Ou, ainda, a rosa vermelha pode estar ainda na forma de botão enquanto a branca já estiver murchando. A rosa branca pode estar num vaso e a vermelha na roseira. Apesar de todas estas diferenças particulares, o que é comum em todas estas situações? O que está na essência da percepção de qualquer rosa, ou de qualquer objeto, em qualquer estado?

A resposta é a seguinte: o que há de comum em qualquer situação de percepção, de qualquer objeto, em qualquer estado possível é, justamente, o fato de existir uma condição à priori da sensibilidade sem a qual não se poderia perceber os objetos sob suas formas particulares diversas: esta condição é o que chamamos de Espaço.

Só podemos perceber os objetos na medida em que eles se apresentam extensos, isto é, “ocupando um lugar no espaço”. No entanto, não podemos realizar experiências com o espaço em si mesmo. Só podemos realizar experiências com os corpos que se inserem na condição de serem espaciais, como as rosas, por exemplo. Não podemos ver o espaço, só podemos ver os objetos que nele se superpõem - e aquilo que chamamos de “espaço vazio” não representa nada no mundo. O espaço em si mesmo não é um objeto – não está no mundo – , é tão somente uma condição abstrata e, por isto, à priori da estrutura da sensibilidade que se encontra no Sujeito Transcendental.

Se perguntarmos então: “Onde está o espaço?” A resposta deve ser: “Em lugar algum”. Já que o espaço não é um objeto, mas somente uma condição em que o percebermos segundo suas formas particulares, então ele não pode ser encontrado no mundo. Por exemplo, para se afirmar que o espaço esteja em algum lugar fora de nós, seria necessário supor um outro “espaço” que o contivesse, mas aí ficaríamos mais uma vez com o problema de onde encaixar este novo “espaço”. Desse modo, o Espaço não está nem fora de nós nem nos objetos. Mas se perguntarmos “o espaço existe?”, a resposta de Kant será que o espaço não está em nenhum lugar, mas existe como uma condição da sensibilidade em geral. Ele é à priori, portanto é Universal e Necessário.

Mas ainda há mais um fator a ser considerado. Não percebemos os objetos somente por estes possuírem uma extensão. Se assim fosse, tudo se encontraria imóvel no mundo. Observaríamos os objetos congelados, como se fossem fotografias. No entanto os objetos possuem movimentos diversos: se deslocam de um lugar para o outro, se modificam de diversas maneiras. Portanto a sensibilidade deve ter mais uma condição à priori para a percepção deste movimento. Esta segunda condição é o Tempo e podemos dizer que sem ele não seríamos capazes de perceber qualquer movimento, pois o movimento nada mais é que uma sucessão de configurações espaciais no tempo.

Assim, um carro, que se move a 100 km/h, está se deslocando espacial e temporalmente e isto só pode ser percebido se conseguimos notar as sucessões temporais de antes e depois em relação ao espaço que ele ocupou, ao espaço que ele ocupa e ao espaço que ele ocupará. Em outras palavras, o tempo e o espaço se relacionam na forma do passado, do presente e do futuro. O tempo não está fora de nós, pois, se estivesse, também deveria ser um “objeto” e possuir uma modificação a partir de um outro “tempo”. Mas não é isso o que acontece, não vemos o tempo envelhecer nem mudar de lugar. Só percebemos a sua passagem por meio dos objetos que surgem, que mudam de lugar, que envelhecem ou que deixam de existir.

Desta maneira, tanto o Tempo como o Espaço se combinam para realizar a síntese da percepção sensível do mundo. O espaço e o tempo não fazem parte do mundo, mas existem tão somente como formas puras da percepção sensível do sujeito. Neste sentido, tanto o espaço como o tempo dependem da existência anterior do sujeito em geral (transcendental), mas existem de maneira à priori para o sujeito particular ou empírico. Para Kant, o erro do dogmatismo metafísico que o precedeu era justamente o de tentar atribuir estas qualidades aos objetos e não ao sujeito que os observava. Daí a inversão no jogo filosófico: do objeto para o sujeito. Esta atribuição das qualidades de tempo e espaço aos objetos levou os filósofos de antes de Kant ao erro de imaginar uma essência metafísica que sustentava as existências materiais destes objetos. Quando, na verdade, estes filósofos estavam confundindo as condições à priori da sensibilidade (o espaço e o tempo) com uma essência que não existe em nenhum mundo supra terreno.

sábado, 12 de junho de 2010

O Despertar de Kant...

Imanuel Kant foi um homem de compleição franzina que, segundo contam as histórias acerca de sua vida, jamais deixou a pequena cidade de Königsberg, na Alemanha, onde viveu de 1724 a 1804. Contam, também, algumas lendas sobre a exagerada disciplina e pontualidade que Kant mantinham com relação a alguns de seus hábitos diários. Uma dessas lendas afirma que os homens encarregados dos horários dos trens ajustavam os seus relógios de acordo com o passeio matinal que, pontualmente, o filósofo alemão fazia todos os dias em seu jardim.

Seu trabalho é marcado por suas três principais obras, que se reúnem sob o título geral de Criticismo Transcendental: são elas a Crítica da Razão Pura (1781- 7), que pretende demarcar as fronteiras daquilo que se pode conhecer; a Crítica da Razão Prática (1788), que discorre sobre o conhecimento prático humano ou sobre o dever moral; e, finalmente, a Crítica do Juízo (1791), na qual Kant se volta para o destino último do universo, das coisas e da experiência humana. Diferentemente daquele significado comum de “Denegrir”, “Depreciar”, “Apontar para os defeitos” etc, a Crítica no sentido filosófico se refere a uma indagação rigorosa sobre os fundamentos daquilo que se pode (ou se quer) conhecer e/ou daquilo que se pode (ou se quer) fazer. Notamos, então, que Kant empenhou toda a sua vida na inquirição sobre a condição do conhecimento, seus limites e suas possibilidades.

É Kant quem nos relata que foi “despertado de seu sono dogmático” quando se deu conta dos efeitos devastadores das afirmações contidas na obra de David Hume, principalmente aquelas que se opunham a uma existência, em si mesma, das coisas segundo um ponto de vista metafísico: como a existência em si mesma de Deus, a existência em si mesma do Sujeito, a existência em si mesma de Objeto, da matéria, da forma, do espaço, dos fenômenos em geral e, também, a existência em si mesma das relações causais.

O que Kant quer dizer com “despertar do sono dogmático” é que, antes de tomar conhecimento do pensamento de Hume, ele também acreditava em afirmações sobre a existência desta lista de coisas sem que, necessariamente, esta crença estivesse baseada em uma Crítica no sentido acima exposto. Ele toma para si, portanto, o trabalho de traçar esta Crítica de modo a se poder verificar com precisão os limites daquilo que é possível conhecer e afirmar. O peso do trabalho kantiano está em separar do conhecimento metafísico o que pode ser conhecido do que não pode ser conhecido nas mesmas condições. Em outras palavras, a força e a importância de sua obra é a de separar aquilo que é ciência (no sentido amplo da palavra) daquilo que é mero dogmatismo. Este trabalho foi tão relevante para a Filosofia que a sua História se divide em “antes de Kant e depois dele”.

O grosso do que precisamos saber do pensamento kantiano acerca do conhecimento está na Crítica da Razão Pura, em que ele tenta averiguar as condições necessárias e suficientes para o conhecimento puro, ou seja, para aquele conhecimento que não requer qualquer experiência que o verifique. Notamos que, antes que Kant expusesse suas idéias, todos acreditavam que, para se conhecer, era necessário iniciar as investigações partindo-se “daquilo que se queira conhecer”, isto é, acreditava-se que era necessário investigar os “objetos” tomados em si mesmos, independente do sujeito. Porém, ao fazê-lo automaticamente se postulava uma existência transcendental para estes objetos, assim como o fez Platão por exemplo. Era exatamente esta postura que Kant condenava como dogmatismo filosófico: uma crença sem fundamentos numa existência essencial dos objetos como meras idéias que dão suporte ao mundo sensível em geral.

Kant irá inverter o jogo filosófico do conhecimento dizendo que toda investigação sobre o quê se pode (ou se quer) conhecer deve partir daquilo que fornece as condições necessárias e suficientes para o conhecimento em primeiro lugar. Para ele, estas condições se encontram, justamente, no Sujeito do
conhecimento e é a partir dele que sua investigação inicia. Ao invés de ir buscar o conhecimento diretamente nas coisas do mundo (nos objetos), como era prática comum antes dele, Kant irá inverter a investigação filosófica e apontar a mira de sua filosofia para o Sujeito conhecedor. Assim, ele inicia partindo do pressuposto de um Sujeito em geral (ou Transcendental) no qual as características essenciais de qualquer sujeito particular (eu, você, o professor, nosso vizinho, ou qualquer um) poderiam ser encontradas. Essas características essenciais poderiam ser todas resumidas pelo nome de Razão.

O início da filosofia kantiana, portanto, se dá quando ele considera como inata (de nascença) a todo ser humano uma faculdade pura do entendimento. Este entendimento é “puro” porque Kant quer considerar apenas a sua estrutura formal – a mera possibilidade de conhecer as coisas e não as coisas particulares que se pode conhecer por meio dela. Por ser inata, essa possibilidade de conhecer as coisas vem antes de conhecê-las de fato, portanto a Razão só pode ser uma condição de conhecimento a priori do ser humano. No entanto, aquilo que se conhece de maneira particular (os objetos como mesas, cadeiras, pessoas etc), que é o conteúdo que preenche a estrutura do nosso entendimento, e que vem depois dela portanto, é a posteriori, ou seja, só podemos conhecer estes conteúdos diversos por meio de nossa vivência diária no mundo.

Para este filósofo, o entendimento puro e a experiência completam o todo do que chamamos de Sujeito do Conhecimento. Este seria composto pelo Sujeito Transcendental (à priori), que é a pura condição de todo conhecimento; e o Sujeito Empírico (à posteriori), que realiza a ação particular de conhecer por meio das experiências diversas (a vizinha, o açougueiro, o menino etc) - são as pessoas tomadas individualmente. O Sujeito Transcendental fornece as condições de possibilidade para que o Sujeito Empírico, por meio da experiência, possa conhecer os objetos empiricamente. Por sua vez, o Sujeito Empírico fornece o conteúdo, por meio da experiência com os objetos particulares, para que o Sujeito Transcendental possa criar generalizações, conceitos, idéias, teorias, abstrações, planos etc.

Um sem o outro torna impossível o processo do conhecimento. Sem a estrutura formal não há como conhecer os objetos particulares. E sem a experiência com estes objetos a estrutura fica imóvel, sem ter com que trabalhar. O à priori e o à posteriori, unidos, nos fornecem as condições para um conhecimento completo e, parafraseando Kant, “O Entendimento sem a Experiência é cego, a Experiência sem o Entendimento é burra”.