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sexta-feira, 23 de julho de 2010

As Palavras e as Identidades Culturais...

Uma vez que os seres humanos iniciaram sua vida em grupo, descobriram necessidade da comunicação. Os graus de comunicação aumentam ou diminuem de acordo com a competência dos participantes deste processo, que se assemelha muito a um jogo. Na medida em que são bem sucedidos, isto é, na medida em que estes participantes do processo de comunicação (o Emissor e o Receptor) estabelecem contato por meio de sinais, se verifica o quanto de informação pode aparecer.

Podemos dizer que quanto mais informação houver no processo de comunicação maiores serão os benefícios mútuos que poderão advir. A informação que se apreende, por sua vez, é mais ou menos como uma habilidade de se perceber (apreender, compreender, perceber) algo que é um meio termo entre o absolutamente novo, isto é, o que nunca se viu antes, e a repetição absoluta, isto é, o idêntico.

Para que haja informação, é necessário, em primeiro lugar, um Sujeito que é capaz de perceber o sinal. Por sua vez, o sinal dever ser arranjado de tal maneira que nem seja algo que nunca se viu antes nem seja algo absolutamente monótono. As palavras cumprem este fim de maneira bastante satisfatória, pois não mudam muito de forma e, no entanto, podem ser arranjadas entre si de infinitas novas maneiras.

Sendo assim, os humanos descobriram que a linguagem, a articulação dos sinais com a finalidade da comunicação, encontra a sua forma quase que definitiva no discurso. Este é, de maneira simples, a ordenação das palavras de acordo com regras.

Conforme os grupos iam se organizando e se distinguindo cada vez mais uns dos outros, suas palavras, seu discurso e sua linguagem também iam se desenvolvendo e se distinguindo entre si.

As línguas naturais dos povos - como o russo, o grego, o japonês, o português, o francês, o alemão, o inglês - não se distinguem apenas por letras ou por palavras diferentes. Nem tampouco são meros conjuntos de regras gramaticais mais ou menos complicados.

Cada uma destas línguas, e centenas de outras, são discursos diferentes. Cada uma delas são formas distintas de organizar os sinais. Estas línguas nasceram há muito tempo, formando, em torno de si, enormes grupos de pessoas no ato de comunicar.

Quando se aprende uma nova língua não se aprende apenas os nomes das coisas e das ações. Nem somente as regras para usar este ou aquele nome, esta ou aquela ação. Quando se aprende uma nova língua, deve-se ter em mente um novo tipo de pensamento, de organização cultural, de época. Deve-se ter em mente as tradições desse povo, seus hábitos, suas roupas, suas constituições físicas, suas leis, suas cidades, enfim, sua história.

A língua se forma junto com o povo. Muitas vezes, a língua confunde-se com o próprio povo. No Brasil, notamos isto nos famosos regionalismos, nos quais palavras e expressões inteiras são conhecidas somente em um ponto específico do território. É também muito fácil notarmos como a língua se confunde com a maneira de pensar de um determinado conjunto de pessoas quando dirigimos nossa atenção para os sotaques.

Jamais confundiríamos, por exemplo, o sotaque de alguém que viveu sua vida inteira no Rio Grande do Sul com o sotaque de alguém que nasceu em Pernambuco. Estes dois Estados brasileiros não estão separados apenas pela distância geográfica, de um para o outro tudo muda: os hábitos, as roupas, as comidas típicas, as festas etc. A língua, portanto, traduz verbalmente todas estas tradições e configura, ela mesma, uma enorme parcela desta identidade: mesmo assim, estes dois povos, o pernambucano e o gaúcho, se identificam na língua portuguesa. Colocados juntos, numa conversa, possivelmente, muita in-formação poderia brotar. Provavelmente, mais do que se colocássemos apenas dois gaúchos juntos, ou apenas dois pernambucanos, para conversar. A informação está neste intervalo entre o diferente e o mesmo.

De maneira mais radical podemos perceber isto nos países Europeus que possuem uma tradição histórica mais antiga que a nossa, que é oriunda, principalmente, da colonização portuguesa e da vinda dos escravos negros da África. Nestes países, principalmente os da Europa Oriental, existem pequenos povos que possuem raízes étnicas diferentes, ou seja, possuem origens, línguas e formações culturais distintas e que, mesmo assim, foram obrigados a se identificarem uns com os outros por motivos de organização política ditatorial.

Este é o caso da antiga Iugoslávia. País no qual povos como os Croatas e os Sérvios tiveram que abdicar de sua identidade cultural em prol de uma união nacional fictícia. O resultado foi uma reação violenta, culminando numa guerra com milhares de mortos. Os mesmos eventos violentos vêm ocorrendo há tempos na África, cujo território foi dominado e arbitrariamente dividido entre países como a Inglaterra, a França e a Alemanha. Assim, tribos, historicamente inimigas, foram obrigadas, mais uma vez, a viverem juntas e, de novo, as reações violentas. Também a China vem dominando o Tibet desde meados do século XX.

O Brasil também teve alguns encontros compulsórios de diferentes etnias, como os europeus, os indígenas e os africanos. E por causa disso muitos conflitos violentos tiveram vez no Brasil. A cultura indígena, seus cultos, suas tradições, sua culinária, sua língua, foram quase que totalmente suprimidos. O mesmo não aconteceu com o povo africano, que conseguiu, a duras penas, marcar presença na cultura brasileira por meio da religião e da língua.

A língua portuguesa, no Brasil, é fruto desta múltipla interação entre povos diferentes. Elementos de nossa cultura, portanto, como o futebol, a música, a religião, a culinária, o vestuário e a própria língua demonstram, no dia-a-dia, a grande quantidade de informação surgida desta mistura entre o diferente e o mesmo. Contudo, para que esta informação se concretize de fato, ainda continua sendo necessário um sujeito que perceba estes sinais na natureza.

“A religião, a culinária, o vestuário, o mobiliário, as formas de habitação, os hábitos à mesa, as cerimônias, o modo de relacionar-se com os mais velhos e os mais jovens, com os animais e com a terra, os utensílios, as técnicas, as instituições sociais (como a família) e políticas (como o Estado), os costumes diante da morte, a guerra, o trabalho, as ciências, a Filosofia, as artes, os jogos, as festas, os tribunais, as relações amorosas, as diferenças sexuais e étnicas, tudo isso constitui a Cultura como invenção da relação com o Outro.”
Os gregos, sob o ponto de vista racial, constituíam um produto híbrido. Alguns dos mais remotos habitantes da Grécia parecem ter falado uma língua muito diferente do grego. (...) Por vezes, certos pensadores baseiam em motivos raciais as realizações gregas ulteriores ou estabelecem o contraste entre as qualidades inatas da disciplina dórica e da versatilidade jônica. Isto, na melhor das hipóteses, traduz uma confusão entre raça e cultura; na pior, perversões como a do culto do homem nórdico.
A palavra ‘grego’ permite várias acepções, mas a expressão ‘civilização grega’ significa, vulgarmente, aquela civilização que começou na Idade do Ferro e atingiu o seu maior esplendor nos V e IV séculos a.C.. A nova civilização que surgiu nas terras gregas está na origem de todas as civilizações ocidentais modernas, mas para ela não foi ainda possível encontrar qualquer antepassado legítimo.

                                                                                                                            (R.M. Cook, Os Gregos)

domingo, 30 de maio de 2010

A cultura se expressa na história...

Filosoficamente, a palavra “cultura” nos sugere duas interpretações bastante amplas. A primeira se deve à análise da evolução do espírito humano no decorrer da História. Isto é, se pode constatar que a aglutinação das pessoas, dando origem às sociedades, passa por modificações diversas no tempo e estas modificações apontam para um sentido, para uma direção histórica, que pode ser lida, interpretada e, algumas vezes, prevista. Assim, vê-se que o que antes eram formas de sociedade sem muitos vínculos que as sustentassem como tal, foram, de tempos em tempos, consolidando características particulares que as faziam diferir umas das outras.

Um determinado grupo pode possuir “marcas” próprias que não se confundem com as de outro grupo. Estas “marcas” se materializam de muitas maneiras: hábitos, crenças, trajes, idiomas, biótipos etc. Na medida em que estas marcas se enraízam no cotidiano das pessoas, de modo a se tornarem uma parte inseparável delas, então encontramos, neste grupo, uma identidade. De algum modo, todas as pessoas deste grupo podem ser confundidas segundo algum aspecto; dizemos, então, que elas estão inseridas numa determinada cultura. Mas esta imagem que se reflete nos hábitos, nas crenças, nos trajes etc, e que chamamos de identidade cultural não se congela no tempo, jamais deixa de mudar. A identidade cultural de um grupo não deixa de se transformar, adquirindo novos elementos e suprimindo outros.

A cultura, portanto, se expressa na história. Ela se estabelece na forma de nações, de religiões, de guerras, de filosofias, de línguas, de cidades, de modas etc. Neste primeiro sentido de Cultura, como análise histórica da peregrinação humana na Terra, existem duas linhas de pensamento filosófico que se opõem uma à outra e que merecem um breve comentário.

A primeira vê a Cultura como a progressiva manifestação do espírito humano na Terra no decorrer do tempo. Segundo esta concepção, há um sentido que aponta para um necessário avanço histórico do Espírito, do Ser. As diversas formas de manifestações culturais pelas quais os povos já viveram e morreram seriam como que etapas necessárias da trilha que o Espírito deve percorrer para evoluir. Assim, a cultura que possuímos hoje é uma expressão aperfeiçoada do espírito em relação à cultura que havia há dois séculos por exemplo. Ainda neste raciocínio, a cultura que supostamente possuiremos no futuro será uma expressão mais evoluída em relação à cultura que possuímos atualmente. Percebemos que esta concepção de cultura é muito popular e bastante propalada de diversas maneiras (Por exemplo, os votos e as canções de Ano Novo). Esta concepção nos faz criar um sentimento bastante íntimo de que vivemos, atualmente, em um mundo melhor do que o do passado, e que o futuro sempre nos guarda boas novas.

A segunda se opõe à primeira na medida em que vê a História como fruto do trabalho humano e não como a mera manifestação de um Espírito coletivo abstrato. Enquanto na primeira opção não há nenhuma escolha (isto é, somente um caminhar contínuo e progressivo no sentido da evolução, e o Homem e sua História são apenas uma expressão passiva deste caminhar), já na segunda a História é vista como o desenrolar dos diversos conflitos criados e resolvidos pelo próprio homem. Assim, temos dois pontos de vista bastante distintos: no primeiro, a história faz o Homem; no segundo, é o homem que faz a história; no primeiro temos uma cultura que deve ser apenas aceita, não nos cabendo qualquer poder de decisão sobre ela; no segundo ela é um produto imediato da ação, do trabalho e das diversas atividades humanas, que são responsáveis diretas pelo que acreditamos, comemos, vestimos, fazemos, enfim, pelo que somos.

A primeira concepção pode ser chamada Idealismo, pois se baseia puramente num movimento abstrato do conceito de Espírito. Já a segunda pode ser chamada de Materialismo (materialismo histórico), pois resume a história à série de atributos físicos que fazem com que o humano trabalhe no sentido da construção de sua Cultura. Logo, a Cultura possui um duplo aspecto: ela pode ser encarada como um Idealismo ou como um Materialismo. Ela é um Idealismo porque não encontramos no mundo nenhum objeto físico que chamamos pelo nome de Cultura, trata-se apenas de um conceito abstrato que fabricamos intelectualmente na tentativa de inserir o Homem num tipo de teoria a respeito de sua situação no planeta. Mas ela também é um Materialismo, na medida em que não vivemos apenas de conceitos, vivemos cercados de objetos e de ações, estes são atributos físicos de nossas vidas particulares e a base de qualquer conceito de cultura.

Mas ainda falta pensarmos um pouco na segunda interpretação da palavra “Cultura” apenas mencionada no início. Dissemos que, a partir do momento que o ser humano se reúne para viver em grupo, ele começa a dotar este grupo de características e marcas próprias que chamamos de identidade cultural. Estas marcas definem culturas particulares, distinções entre os grupos. No entanto, podemos reunir todos estes grupos sob a égide do mesmo signo e lhes conferir uma identidade universal: a de ser Humano. Assim, esta identidade global é a máxima manifestação do conceito de Cultura e não tem, absolutamente, nenhuma relação com a história, como a primeira interpretação que mencionamos. Podemos notar que falamos dos diversos povos, nações e tribos como membros da raça humana, ainda que estes povos, nações e tribos estejam muito distantes uns dos outros, seja geograficamente, seja historicamente. Há, portanto, uma idéia - ou hábitos - que faz dos elementos destes grupos distintos seres que possuem uma identidade cultural bastante complexa e rica, contudo suficientemente precisa para inseri-los dentro de um mesmo caudal cultural, dentro de uma mesma tribo global. É claro que existem os aspectos da biologia que faz da nossa espécie diferente das demais e vice-versa. No entanto, a característica que consolida o ser humano como um grupo cultural único é a habilidade de pensar em si mesmo como um ser religioso, racional, histórico, biológico, filosófico. Assim, resumidamente, o ser humano constrói e aceita sua cultura na medida mesma em que pensa e reflete sobre ela.