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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Conhecimento: Acúmulo de Conhecimentos?

O Conhecimento é encarado, pela maioria das pessoas, como um acúmulo de informações diversas que se pode ter sobre assuntos variados. Criou-se um raciocínio do tipo: quanto mais informação se puder acumular, por exemplo

sobre futebol, então mais sobre este esporte em particular se conhece. Mas notamos que o conceito de conhecimento pode ser um pouco mais complexo que isso. Por vezes achamos que o conhecimento não precisa depender tanto assim de uma enorme lista de informações, mas do uso que eu possa fazer destas informações no mundo prático. Então, vejamos: posso saber recitar o nome inteiro de todos os jogadores (titulares e reservas) da primeira seleção de futebol da Arábia Saudita. Contudo ninguém nunca me pediu para fazê-lo, de modo que não sei muito bem o que fazer com esta informação. Neste caso, a informação existe, mas como sua utilidade é um tanto duvidosa, há apenas parte do conhecimento.

O que é o conhecimento então? O campo filosófico que tenta responder esta pergunta chama-se Teoria do Conhecimento; este já forneceu várias respostas muito bem elaboradas durante toda a sua história, que remonta aos antigos gregos. Para Platão, como já tivemos a oportunidade de estudar, o conhecimento verdadeiro era se aproximar dos universais, isto é, das Idéias (os conceitos) perenes, imutáveis, perfeitos e necessários. Para Aristóteles, conhecimento era a manifestação da própria consciência, que se encontra em pensamentos e que se identifica como Ser em ato e em potência (como sujeito e como objeto do conhecimento). Para Heráclito, o conhecimento era a consciência do movimento contínuo e eterno do cosmos, o qual se reflete nos movimentos particulares de todas as coisas.

Platão e Aristóteles refletem duas vertentes diferentes sobre o conhecimento e que se manifestaram, com certas variações, repetidamente em muitos outros pensadores posteriores a eles. Platão vê o conhecimento como algo a ser buscado e adquirido, como objetos supra-sensíveis que existem de maneira independente dos seres humanos e cujas qualidades existem neles mesmos. Estes objetos não pertencem a este mundo, mas a um outro mais perfeito, mais real, mais permanente, que seria idêntico àquilo que se entenderia por Verdade no sentido mais puro possível.

Já Aristóteles não dissocia o conhecimento da vida fenomenal, do ato de buscar o conhecimento que é, também, o ato de conhecer. Para Aristóteles, o mundo é uma manifestação do conhecimento e este pode ser desvendado pelo ato da interação dinâmica com este mundo, transformando potência em ato. Ao contrário de Platão, o conhecimento para Aristóteles não existe em si mesmo, mas somente com a intervenção do sujeito do conhecimento que realiza o ato de conhecer por meio de suas diversas possibilidades.

O conhecimento ainda pode ser considerado uma união de diversas capacidades humanas interligadas e voltadas para um determinado fim, que pode ser prático ou teórico. Nesse sentido, encontramos os órgãos dos sentidos, a percepção sensorial, recebendo ou captando informações do meio circundante; a memória acumulando as informações que são recebidas pela percepção; o entendimento trabalhando com as possibilidades de combinação entre estas informações e, por fim, a atividade motora coordenando os músculos, os ossos e os tendões no sentido da ação. Supervisionando cada um destes momentos está a consciência, atenta a cada situação, para interferir oportunamente sobre eles. Unidas, estas habilidades projetam o ser humano por meio dos tempos na direção da interação e na produção do conhecimento.

Então o conhecimento em parte se constrói e, em parte, é alcançado. De uma forma ou de outra, o conhecimento é uma disposição do espírito humano, que tenta apreender o Real. É a ação mental, cultural, religiosa, social ou filosófica de explicar aquilo que nos cerca, de manter uma teoria sobre a existência, sobre o mundo e sobre como agir nele. A Teoria do conhecimento fabrica alguns parâmetros para se chegar a um acordo sobre quando, como e por que conhecemos. Basicamente, a Teoria do conhecimento, que é a atitude filosófica sobre ele, descreve as possibilidades filosóficas do verdadeiro conhecimento.

Se tomarmos um exemplo de possibilidade de verdadeiro conhecimento, teremos, no caso do Realismo, que identificar o objeto do conhecimento com a teoria sobre ele, de maneira que, comparando-se o pensado com aquilo de que se pensa (em outras palavras, a realidade com a teoria sobre ela) e verificando a semelhança entre um e outro, então tanto melhor será o conhecimento quanto mais semelhante àquilo que se quer conhecer ele for. Mas temos, também, o exemplo do Empirismo, cujo único critério para o verdadeiro conhecimento é, tão somente, o bom uso das experiências que se pode realizar sobre o mundo. Além do realismo e do empirismo, há a corrente racionalista. Esta vislumbra apenas as possibilidades lógicas como método de análise das afirmações sobre o mundo. No racionalismo, a lógica é o único critério confiável para se poder dizer se há ou não conhecimento verdadeiro sobre um determinado assunto.

O conhecimento sempre manterá uma ligação com a idéia de verdade e isto independe da escola filosófica que discursa sobre ele. A verdade é, assim, o objetivo final de qualquer investigação sobre o mundo e, para entender o que seja o conhecimento, teremos que levar em conta o ideal de Verdade ao qual a Teoria acerca do conhecimento faz referência. Se a Verdade for tudo aquilo

sobre o que o Sujeito for capaz de pensar, então o conhecimento será o seu próprio pensamento. Se a Verdade for uma Essência, uma Idéia, então o conhecimento será a obtenção dela. Se a Verdade for a intervenção humana no mundo, então o conhecimento será qualquer ação que se puder executar sobre ele. Se a Verdade for um ato de Fé, então o conhecimento será tudo aquilo em que se puder acreditar. Se a Verdade for somente um produto do discurso, então o conhecimento será o simples ato de convencer alguém sobre a sua existência.

1- Ao que tudo indica, o Conhecimento, no sentido filosófico, não é apenas o acúmulo de informações. Também não se trata somente da utilidade destas informações. O conhecimento não é apenas memória, ou apenas percepção, ou apenas ação. O conhecimento, muitas vezes, é definido como a união de todas estas habilidades direcionadas para uma determinada finalidade. Mas qual seria esta finalidade? Explique.
2- Você possui critérios definidos para se certificar de que conhece algo? Por acaso eles coincidem com os do Realismo, ou os do Empirismo, ou os do Racionalismo? Justifique sua resposta.

domingo, 23 de maio de 2010

Sujeitos do Conhecimento...

Geralmente, quando pensamos no significado comum da palavra “sujeito”, nos vem à mente uma pessoa que praticou uma determinada ação ou alguém sobre o qual falamos alguma coisa. De fato é assim que vemos aparecer, na gramática, o sujeito como o responsável sobre a ação dos verbos nas sentenças. No entanto, em filosofia, fazemos, geralmente, uma distinção entre quatro tipos de sujeito: o sujeito ontológico, o sujeito do conhecimento, o sujeito social e o sujeito moral. Há, também, o ‘sujeito lógico’, contudo ele se assemelha muito ao sujeito da gramática.

Nos referimos ao sujeito ontológico quando afirmamos a existência, hipotética ou não, do Ser que pode suportar a carga das qualidades de estado ou de ação. O sujeito ontológico é encarado como uma realidade que permite a existência de uma outra realidade (uma ação, um estado, uma qualidade, ou mesmo um outro objeto), de modo que esta segunda realidade se torne dependente da primeira.

Não poderíamos afirmar nada sobre cadeiras, sobre mesas, sobre aviões, se não houvesse a categoria de ‘sujeito ontológico’ na qual estes objetos se enquadram de maneira particular. Toda vez que afirmamos que cadeiras, aviões e mesas existem sem mencionarmos nenhum exemplo particular de cadeira, mesa ou avião, então estamos nos referindo a estes objetos como sujeitos ontológicos. O sujeito ontológico pode ser definido, resumidamente, como a categoria mais fundamental da existência do Ser.

Já o sujeito do conhecimento é o Ser sobre o qual recaem as capacidades cognitivas, isto é, a percepção e a memória. Podemos dizer que Maria ou João conhecem música, neste caso estamos citando dois exemplos particulares de sujeitos do conhecimento; Maria e João são duas pessoas que possuem as habilidades cognitivas necessárias para serem considerados bons entendedores de música. João e Maria são dois casos particulares do sujeito do conhecimento, mas não são o “Sujeito do Conhecimento”, apenas se enquadram nesta categoria. Deste modo, José, que é professor de História, também pode se enquadrar na categoria de sujeito do conhecimento por entender de história, mas não entender nada de música, e assim por diante.

O sujeito do conhecimento é uma generalização criada pela filosofia para designar a capacidade humana de conhecer de modo geral. Muitas vezes se confunde o ato de conhecer com a pessoa que pratica a ação ou com o objeto que se quer conhecer. Conhecer, num sentido filosófico formal, não implica em nenhum objeto particular de conhecimento, como conhecer uma cadeira ou conhecer uma mesa. Porém, sempre quando dizemos que alguém conhece, temos que especificar o quê este alguém conhece. Percebemos, então, que se trata de dois âmbitos de discussão: o âmbito filosófico, no qual não importa quem ou qual objeto se conhece, e o âmbito da pessoa, no qual importa saber quem e o quê se conhece.

Os sujeitos social e moral estão relacionados entre si na medida em que o meio no qual se inserem lhes impõem limites bastante claros, baseados em direitos e deveres - ainda assim estes dois sujeitos não se confundem e podemos estudá-los separadamente. Começando pelo sujeito social, podemos dizer que sobre ele recaem as obrigações impostas pelas regras criadas no grupo social. O sujeito social também não se confunde com a pessoa ou com o cidadão em particular. Estes possuem anseios e estados psicológicos de diferentes tipos como: Maria gostaria de trabalhar num banco, José gostaria de ser músico, João gosta-ria de trabalhar menos, Gustavo deseja se casar, Guilherme quer ser Presidente etc.

Como os outros “sujeitos” estudados, o sujeito social é, também, uma abstração, uma generalização, sobre a qual se pode pensar quando se quer, por exemplo, propor uma mudança nas regras do jogo social ou quando se quer mantê-las, quando pensamos nos movimentos sociais, apontando os rumos para aonde se dirigem, como as greves, as eleições, as passeatas, as guerras civis etc. Então dizemos que o sujeito social encarna os desejos, as aspirações, as revoltas de todo o grupo social, não importando os anseios particulares de Maria, de João ou de Guilherme.

O sujeito moral encarna a habilidade geral de julgar qualidades do tipo Bem e Mal. Estudaremos o sujeito moral numa aula dedicada apenas à Moral.

1- Percebemos que os diversos tipos de “sujeitos” em filosofia são abstrações ou generalizações de algum tipo, seja sobre a existência (sujeito ontológico), seja sobre a capacidade de conhecer (sujeito do conhecimento), seja sobre a sociedade (sujeito social). Qual é a utilidade em tratarmos das diversas situações em termos de abstrações filosóficas como os “sujeitos”?
2 – Em quais categorias de sujeito o homem se enquadra?

Conhecimento...

Para iniciarmos nosso caminho na estrada que leva à investigação crítica da filosofia, temos que saber um pouco de como, passo a passo, o conhecimento foi se modificando no decorrer da história. É preciso saber como a filosofia foi se estruturando na medida em que os diversos pensadores foram tomando conhecimento dos trabalhos uns dos outros, criticando-os, fazendo sugestões, tendo idéias.

É difícil imaginarmos que o conhecimento filosófico, desde a época de Sócrates, Platão e Aristóteles, tenha aumentado ou diminuído. Geralmente pensamos apenas que ele se modificou, adquirindo elementos novos e perdendo outros tantos na mesma medida. Isto acontece porque não tratamos o conhecimento filosófico como, por exemplo, tratamos o conhecimento sobre as diversas tecnologias.

Explicando melhor, é fácil percebemos a melhora que ocorre nas modificações que os engenheiros fazem nos carros de ano para ano, ou nos computadores, ou nas televisões, ou nos aviões etc. Simplesmente porque eles são capazes de aperfeiçoar peças, tirar erros de projeto, melhorar o desempenho geral e assim por diante; estes engenheiros são capazes de acumular um saber específico sobre um determinado ponto e, assim, a sua bagagem teórica e prática cresce sem nunca diminuir. Percebe-se, assim, porque uma lâmpada projetada nos dias de hoje não pode ser inferior, ou de igual qualidade, à primeira lâmpada inventada na história.

Já na filosofia as coisas mudam um pouco de figura. O saber que os filósofos acumulam é de ordem histórica; sabemos quem foi Sócrates, sabemos de suas idéias, onde viveu a maior parte de sua vida, de que maneira morreu etc. Porém, há algo que não se pode acumular e que é vital para se ser um bom pensador. Este algo é a capacidade de saber lidar com a informação que se recebe de modo a fazer dela algo novo, um conhecimento crítico.

Desta maneira, muito raramente temos, nos dias de hoje, o mesmo tipo de produção filosófica com a qualidade extremamente inovadora como foi a de 2400 anos atrás. Estamos acostumados a pensar que o tempo presente e o futuro sempre trazem coisas melhores, mais aperfeiçoadas. Mas podemos perceber que, pelo menos em filosofia, esta não é uma regra geral. É claro que, nos dias de hoje, raramente encontramos alguém com as mesmas idéias de Platão ou de Aristóteles, em suas peculiaridades, porém as linhas gerais que estes pensadores tornaram públicas nos seus trabalhos possuíam tanta originalidade, tanta criatividade, que ainda são bastante atuais nos dias de hoje.

Percebemos que o que torna a filosofia um conhecimento diferente da maioria é que ela possui um movimento dinâmico, extremamente complexo, de ida e volta às suas raízes. Na verdade, ela nunca esquece o seu passado, as suas origens, e está sempre tentando mostrar coisas que os antigos filósofos não eram capazes de perceber; porém esta é uma tarefa difícil na medida em que os filósofos, em sua maioria, antecipam essas críticas e criam sistemas de pensamento quase indestrutíveis.

No centro da filosofia, mais do que o saber histórico, que também possui a sua devida importância introdutória às questões pertinentes ao conhecimento prático, está a capacidade criativa do pensador. Esta capacidade criativa será diferente de um para o outro, porém ela sempre existe e é ela que nos faz inventar perguntas dos mais diversos tipos, é ela que nos move a pensar, é ela que nos impulsiona a explicar as coisas, a criar maneiras e sistemas de compreender o mundo.

Só assim, dentro de nós, sentimos uma espécie de contentamento, uma saciedade que é muito parecida com a saciedade que sentimos depois de comer. Assim como a fome, a ignorância sobre determinado assunto também nos faz sentir um pouco vazios e este vazio nos faz querer buscar algo que o preencha. Uma vez preenchidos, nos sentimos bem, porém, mais tarde, aparecerá uma nova dúvida, uma nova pergunta que pedirá mais uma resposta num processo sem fim. Como a fome pede um alimento para o corpo, a ignorância nos faz querer um alimento para o espírito, para a inteligência; no entanto, este sempre precisará de mais e mais para se tornar cada vez mais forte, mais crítico. Todavia, exatamente como a fome extrema, também a ignorância extrema nos deixa fracos e preguiçosos intelectualmente; deixamos de querer saber para ficarmos parados e quietos, enquanto nosso espírito definha.

A conclusão a que chegamos a este respeito é a de que o espírito, a mente, deve ser bem alimentado para que cresça forte e desenvolva esta bela qualidade intrinsecamente humana: a capacidade de pensar por si mesma. Só assim se exercita a habilidade crítica, que é inata a todos, mas que está dormente, subnutrida, em muitos que não tiveram acesso à informação. Uma vez desenvolvida, ela nunca pára de crescer e de dar frutos. Estes frutos são as idéias originais como foram, por exemplo, as de Sócrates, Platão e Aristóteles. Por sua vez, estes frutos serão o alimento filosófico para os que vêm depois e que possam estar famintos por conhecimento.

1- De fato a filosofia se diferencia do conhecimento tecnológico; este avança sem nunca se deter, mostrando coisas novas todos os dias, enquanto ela (a filosofia) parece não chegar a lugar algum neste movimento de ida e volta que os pensadores fazem entre si. Isto nos dá a falsa impressão de importância e necessidade que a tecnologia, por exemplo, parece ter e que a filosofia parece não ter. Mas se assim é, por que a filosofia existe e resiste ainda nos dias de hoje? Faça um comentário a este respeito.
2- A fome intelectual é saciada com informação, a digestão é a reflexão crítica. Tanto melhor será a digestão quanto mais “saudáveis” forem estas informações. Mas para encontrar informações deste tipo é necessário saber onde colhê-las. O resultado deste processo é um ser humano com potencialidades intelectuais realizadas. Quais fontes de informação você considera mais pertinentes para o seu desenvolvimento intelectual? Argumente em favor de sua resposta.
3- Por que a ignorância é prejudicial ao homem? Como ela limita o ser humano? Comente.