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sexta-feira, 23 de julho de 2010

O espaço público e o privado...

O homem é um ser, a um só tempo, público e privado. Lembramos que já começamos a compreender um pouco melhor a existência do sujeito como aquele indivíduo que possui uma identidade particular e social. Também vimos que pode existir um grande organismo coletivo, que também possui sua própria identidade, feita das muitas identidades particulares dos elementos que o compõe. Percebemos que estes sujeitos, o coletivo e o particular, se integram e se influenciam mutuamente.

Mas ainda não ficou suficientemente claro quais seriam os limites destes dois sujeitos, ou seja, até que ponto a identidade que eu chamo de minha não é, na verdade, uma identidade coletiva. Em geral, nossas identidades particulares se fundem com as identidades dos grupos a que pertencemos - até o ponto de não sabermos mais se nosso coração obedece aos nossos desejos egoístas ou aos desejos da maioria. Mas há momentos especiais onde isto fica bastante claro. Estes momentos são aqueles em que o espírito de grupo, de equipe, de participação ou mesmo de solidão aparecem de maneira mais óbvia. Se torcemos por um time de futebol que não está indo muito bem no campeonato, então nem nos preocupamos em assistir aos jogos no estádio. Se encontramos algum outro torcedor do nosso time, nem chegamos a comentar a possibilidade de uma queda ainda maior do rendimento. Por outro lado, se em nosso time está tudo indo às mil maravilhas, então, procuramos com quem conversar, assistimos aos jogos pela TV com amigos e até chegamos a ir assistir, ao vivo, no Estádio.

Percebemos que existem situações que pedem um momento de solidão e outros que pedem a reunião para a troca de experiências. Podemos observar facilmente que cada um destes momentos requer locais para dar vazão aos nossos estados de espírito. No carnaval, por exemplo, raramente ficamos tristes ou sozinhos. Neste caso, gostamos de procurar espaços públicos onde haja uma confraternização de todos em torno do mesmo espírito de festa.

Contrariamente, algumas pessoas ficam tristes no Natal ou no seu próprio aniversário. Então, gostam de passear sozinhas ou ficar assistindo televisão até de madrugada. Seja passeando em meio à reflexão na rua, ou sem conversar com ninguém no escritório, esta pessoa está em busca de um espaço privado, onde ela esteja só consigo mesma e, deste jeito, ela encontre a resposta para a sua situação existencial como sujeito, a sua identidade. Assim, percebemos que algumas pessoas são mais extrovertidas do que outras. Algumas pessoas preferem viver em um espaço público, outras em um espaço privado.

A palavra “espaço” aqui deve ser entendida em um sentido psicológico. Ou seja, como a posição dos desejos e da identidade das pessoas em geral. Deste modo, podemos nos encontrar tremendamente sozinhos em meio a uma enorme multidão, ou podemos nos sentir agradavelmente acompanhados com nossa coleção de livros ou com nossa própria intimidade.

Mas também existe uma grande e interessante relação entre o que chamamos de espaço público e o espaço privado e os locais físicos propriamente ditos.

Tomemos o exemplo de um governante falando, por meio de jornalistas, para toda a nação. Este homem representa um sujeito coletivo, representa a identidade de um grupo de pessoas. Portanto ele se encontra num espaço público, mesmo que a entrevista seja na sala da sua casa. Agora, suponhamos que este homem esteja dentro de seu gabinete de trabalho com dois amigos mais íntimos, neste momento eles estão se lembrando de uma farra de quando eram jovens ou contando uma série de piadas pesadas. Nesta situação, este político se encontra num espaço privado e odiaria ser surpreendido por qualquer um que não pertença a este espaço, assim como seus dois amigos com quem brinca.

O exemplo da ilustração da próxima página traz os dois casos em que o espaço público (a entrevista) não se identifica com o local público (o gabinete), o mesmo acontecendo com o espaço privado (as brincadeiras) e o local privado (a sala da casa). Mas esta identidade também pode acontecer quando vamos torcer e agitar a bandeira do nosso time no estádio. Então, colocamos a camisa oficial e nos dirigimos até lá onde gritamos até ficarmos roucos. Depois de findo o jogo, nos dirigimos para a nossa casa, onde agimos naturalmente como sempre. O Espaço público (a torcida) se identifica com o loca público (o estádio), e o espaço privado (a nossa vida comum) com o local privado (a nossa casa).

Notamos um fenômeno também bastante interessante no que diz respeito ao espaço público e ao espaço privado quando comparamos as cidades grandes com as cidades pequenas ou com a vida no campo. Nas cidades grandes, a superpopulação, a vida acelerada pelos horários apertados, pelas distâncias, pelas vias expressas congestionadas na hora do rush, pelo café e elos cigarros consumidos em doses perigosa-mente altas, tornam bastante minguadas e doentes as nossas vidas particulares. Procuramos a paz em locadoras de vídeo, em poltronas isoladas de cinemas, em fundos de restaurantes e sempre se acaba

tendo que ir dormir para acordar cedo no dia seguinte para mais uma maratona de muitos contatos com os outros e poucos contatos consigo mesmo.

Este excesso de exposição pública compulsória, ônibus, trânsito, trabalho, lojas, escola, cinemas, teatros, ruas etc, fazem com que as pessoas sintam falta do espaço privado a que todos almejam em alguma dose. Na ausência de um local assim, as pessoas se introjetam, se tornam casmurras, buscam o refúgio privado dentro de si mesmas - que é só o que lhes restou de íntimo, valorizando isto como o seu bem mais precioso: os seus pensamentos, os seus desejos, os seus segredos, os seus mistérios, são todos guardados no impenetrável forte de seus corações.

Na margem oposta, a vida em pequenas cidades e a vida no campo oferecem muito pouco além da praça, da igreja e das calçadas das ruas nas noites quentes de verão. Ao contrário das cidades grandes, a exposição pública nestes locais fica deveras restrita. As curtas distâncias, o isolamento da roça e do sítio, o número restrito de semelhantes, de afinidades, de gostos, a falta de opção de lazer e de trabalho, tudo isto faz com que, dessa vez, as pessoas sintam falta do seu quinhão de espaço público.

Deste modo, os moradores de pequenas cidades e do campo compensam tentando transformar relações particulares em relações públicas. A conversa sobre a vida alheia se transforma numa espécie de mídia informal. Nas ruas, todos se cumprimentam como se ainda estivessem dentro de suas casas, como se todos fossem realmente conhecidos, amigos, parentes. Não é visto com bons olhos a casmurrice, a introjeção, a introspecção. Todos devem ser amigos, todos devem ser cordiais. Todos devem estar expostos. A falta de maiores espaços públicos torna todas as relações públicas.

O equilíbrio entre o espaço público e o privado é aquilo que equilibra, igualmente, as nossas intenções, vontades, sensações e emoções. É o que equilibra as nossas solidões e as nossas exposições. Próxima

A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
(...)
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres, mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
(...)
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
(...)
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e [lentamente
passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo
Cidadezinha Qualquer
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
                                                                       (Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética.)

A Trilha Para o Conhecimento, Investigação, Curiosidade, Surpresa, Postura Filosófica...

A natureza nos proveu com um corpo pequeno e fraco, mas com uma razoável inteligência. Essa inteligência vem garantindo a sobrevivência da nossa espécie já por um bom tempo. De que forma?

Com o desenvolvimento dos sentidos, da memória, da capacidade de comparar e separar aquilo que é semelhante e aquilo que é distinto e, finalmente, com a habilidade de se comunicar e selecionar informação, a raça humana conseguiu organizar-se em sociedades, grandes ou pequenas, para melhorar suas chances de realizar tarefas difíceis como as que envolvem a agricultura, a caça, a edificação de casas, a confecção de roupas, a manufatura de ferramentas e instrumentos, a construção de máquinas e a elaboração de teorias e modelos etc.

Todos estes elementos nos proporcionam uma enorme e perigosa vantagem com relação aos outros seres vivos do planeta. Perigosa, porque essa vantagem é tão grande que corremos o risco de, embriagados por ela, não perceber que podemos ser, nós mesmos, o alvo de nossos venenos, armas, máquinas etc. Mas, apesar desse perigo, a inteligência continua sendo a nossa arma de sobrevivência neste mundo. Como caracterizá-la então?

Pelo que notamos, não podemos definir a inteligência somente como a capacidade de perceber, memorizar, separar e comunicar. A inteligência deve ser algo ainda maior. A inteligência deve nos prover com a capacidade de perceber o que se esconde por trás das aparências temporais das coisas. A inteligência deve permitir que nós nos admiremos com nós mesmos!

Criamos padrões para facilitar a nossa vida. Padrões são formas que se repetem e que nos garantem uma certa estabilidade num mundo caótico. Esta estabilidade é o que nos garante aquele meio termo entre o distinto e o mesmo, para que brote a informação. Podemos notar padrões como os hábitos alimentares, as maneiras de vestir, a língua de cada país, as maneiras de pensar de cada época etc.

Sem estes padrões viveríamos num caos onde, a cada novo dia, tudo seria diferente do dia anterior. Não conseguiríamos saber o que comer, o que vestir, o que falar e nem mesmo o que pensar, pois tudo mudaria sempre. Uma vez que estes padrões, a seu tempo, se estabelecem, nos tranqüilizamos e já podemos ir dormir calmamente em nossas camas. Na medida em que sabemos, mais ou menos, o que nos espera na manhã seguinte.

Contudo, conforme os padrões sociais vão se solidificando e se estabilizando, fica muito fácil, para nós, mantermos as coisas sempre muito parecidas durante o passar do tempo. Mantemos o mesmo emprego, fazemos sempre o mesmo caminho para a escola, usamos os mesmos modelos de roupas, os mesmos tipos de sapatos, gostamos do nosso velho carro, não gostamos de comer comidas muito exóticas, não tentamos um novo amor, nem um novo penteado.

Nos poupamos das novidades e envelhecemos sem muitas surpresas. Simplesmente repetimos sempre a mesma coisa, todo dia, indefinidamente. Assim, pensamos que tudo estará bem. Tal forma de pensar e de agir é tão sedutora que muitas pessoas caem nessa armadilha e suas vidas se tornam bastante monótonas e arriscadas. Arriscadas porque elas não estão preparadas para mudanças bruscas no ambiente - como guerras, perder os empregos, crises econômicas, crises conjugais ou amorosas, acidentes com seqüelas etc.

Mas dissemos, há pouco, que a inteligência deve ser capaz de se admirar consigo mesma. Deste modo, definimos inteligência pela capacidade peculiar de nos mantermos vivos ainda que situações muito adversas nos cerquem. Portanto, surpreender-se com o que não é óbvio, isto é, com o que se esconde por trás de outras coisas, é tão necessário à vida quanto é se alimentar, se vestir e muitas outras coisas. Além de perceber, memorizar, comparar e comunicar, também precisamos nos espantar para sermos considerados seres inteligentes e criativos.

Para esse espanto acontecer, precisamos, em primeiro lugar, observar o óbvio e tentar enxergar para além dele. Se espantar com as coisas rotineiras, isto é, se admirar com o que nos cerca no dia-a-dia é o que permite uma melhor preparação para situações inusitadas, mas absolutamente possíveis. O tamanho de nossa criatividade, que é a capacidade de sobrevivermos de maneira não monótona, pode ser verificado na quantidade de vezes com que nos espantamos com o que chamamos de “comum” ou de “corriqueiro”.

Desta habilidade de se espantar com as coisas cotidianas surgem momentos mágicos e muito valiosos para toda a espécie humana, como é o caso dos momentos inventivos dos grandes cientistas ou daquelas horas inspiradas dos grandes artistas, como os compositores, os pintores, os poetas e os escultores. Por exemplo: tomemos um padrão simples, como uma chaleira. Alguém nos pede para fazer algo com ela.

Muito bem. Então, olho para ela e penso em um delicioso chá. Encho-a de água e preparo o meu chá. Se, por outro lado, pedíssemos o mesmo para um artista, como Hermeto Pascoal, por exemplo, ele talvez quisesse fazer algo mais original, menos óbvio do que chá com a chaleira.

Talvez, ele pegasse a chaleira e começasse a soprar em seu bico para fazer algum tipo de som. Pablo Picasso pintou diversas mulheres, e a cada novo quadro se podia perceber menos uma mulher e mais uma outra figura qualquer, retorcida, fragmentada, deslocada, reposta.

Ser original, ou criativo, portanto, é saber encontrar novas posições ou funções para objetos comuns, reinventando suas formas e utilidades. Contudo, isto só é possível na medida em que assumimos um ponto de vista novo, diferente, não usual. A adoção deste novo ponto de vista, por sua vez, só é possível quando nos espantamos e nos propomos perguntas do tipo: Mas por que isto é assim? Por que as coisas devem ser assim ou ter esta ou aquela função? Como poderia fazer diferente? Como seria um mundo diferente? Como viver uma vida diferente da que eu vivi até hoje? Como e por que isto ocorre desta maneira? Quando estas perguntas começam a aparecer com alguma freqüência em nossas mentes, é porque estamos adotando o ponto de vista daquele que não está satisfeito, daquele que pede uma explicação, daquele que quer saber o como e o porquê das coisas. Este ponto de vista é também conhecido como Ponto de Vista Crítico ou Ponto de Vista Filosófico.

Sem este ponto de vista crítico ou filosófico, muitas perguntas como estas não teriam sido formuladas em muitos momentos. Deste modo, muitas invenções, teorias, quadros, poesias, pinturas, músicas, esculturas não teriam existido. Se existe uma postura filosófica no sujeito que percebe as coisas comuns, então, existe um olhar crítico. Se existe um olhar crítico, então, há a percepção do novo. E, se o novo aparece, é porque as coisas estão mudando.

Mundo de Sofia:

Muitas pessoas têm hobbies diferentes. Algumas colecionam moedas e selos antigos, outras gostam de trabalhos manuais, outras, ainda, dedicam quase todo o seu tempo livre a uma determinada modalidade de esporte.

Também há os que gostam de ler. Mas os tipos de leitura também são muito diferentes. Alguns lêem apenas jornais ou gibis, outros gostam de romances, outros ainda preferem livros sobre temas diversos, como astronomia, a vida dos animais ou as novas descobertas da tecnologia.

Se me interesso por cavalos ou pedras preciosas, não posso querer que todos os outros tenham o mesmo interesse. Se fico grudado na televisão assistindo a todas as transmissões de esporte, tenho que aceitar que outras pessoas achem o esporte uma chatice. (...)

Qual é a coisa mais importante da vida? Se fazemos esta pergunta a uma pessoa de um país assolado pela fome, a resposta será: a comida. Se fazemos a mesma pergunta a quem está morrendo de frio, então a resposta será: calor. E, quando perguntarmos a alguém que se sente sozinho e desolado, então certa-mente a resposta será: a companhia de outras pessoas.

Mas, uma vez satisfeitas todas essas necessidades, será que ainda resta alguma coisa de que todo mundo precise? Os filósofos acham que sim. Eles acham que o ser humano não vive apenas de pão. É claro que todo mundo precisa comer. E precisa também de amor e cuidado. Mas ainda há uma coisa de que todos nós precisamos. Nós temos a necessidade de descobrir quem somos e por que vivemos.

O Melhor meio de se aproximar da filosofia é fazer perguntas filosóficas: Como o mundo foi criado? Será que existe uma vontade ou um sentido por detrás do que ocorre? Há vida depois da morte? Como podemos responder estas perguntas? E, principalmente: como devemos viver? Essas perguntas têm sido feitas pelas pessoas de todas as épocas. Não conhecemos nenhuma cultura que não se tenha perguntado quem é o ser humano e de onde veio o mundo. Basicamente, não há muitas perguntas filosóficas para se fazer. Já fizemos algumas das mais importantes. Mas a história nos mostra diferentes respostas para cada uma dessas perguntas que estamos fazendo. É mais fácil, portanto, fazer perguntas filosóficas do que respondê-las.

                                                                                                           (Jostein Gaarder, O mundo de Sofia)
O que é "Comum"?

Naquela época nós sempre tínhamos em casa duas ou três galinhas ciscando no quintal. Você acha que a galinha é uma coisa comum? Bem, eu também achava. Mas isso foi antes de conhecer Mika. Imagine que você fosse um astronauta solitário atravessando o espaço sideral. Mesmo que você viajasse durante meia eternidade, só com muita sorte encontraria uma galinha — uma só que fosse!

Há bilhões de estrelas no universo. Uma ou outra pode ter um ou dois planetas girando à sua volta. Depois de viajar muitos e muitos anos, você poderia chegar a um planeta onde existisse vida. Mas mesmo num planeta com vida, as chances de encontrar uma galinha são mínimas. Seria mais provável você encontrar um ovo. Mas duvido muito que desse ovo saísse uma galinha.

É bem possível que não existam galinhas em nenhum outro lugar do universo exceto no nosso planeta Terra. E o universo é tão vasto que nem dá para imaginar! Sendo assim, como podemos dizer que a galinha é comum?

                                                                                              (Jostein Gaarder, Ei! Tem alguém aí?)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Filosofia hoje: Passado e Futuro

Ao contrário do que imaginava o jovem Wittgenstein, a filosofia não acabou com o Tratactus Logico-Philosophicus. Pelo contrário, a partir de seus trabalhos posteriores, muitos pensadores puderam se organizar melhor no sentido de abrir algumas portas para um pensamento crítico interdisciplinar. Foi assim que surgiu uma das manifestações mais recentes da Filosofia, que se uniu às ciências exatas, às ciências naturais e às ciências humanas: a Ciência Cognitiva e a Filosofia da Mente.

O passado e o presente se juntaram numa síntese filosófica, preservando o que havia sido produzido de mais interessante em matéria de filosofia, de ciência, de lógica, de psicologia, de lingüística, de computação, de economia, de ciências sociais etc. Esta síntese remeteu o pensamento para o futuro, para um avanço sobre o que entendemos por Mente e/ou Espírito humano; esta síntese nos remeteu para o que entendemos por capacidades de conhecer, sobre o que entendemos por capacidade de agir, sobre o que entendemos por capacidade de perceber, enfim, sobre o que entendemos por Sujeito e sobre como ele pode se relacionar cognitivamente com o mundo e com os sujeitos particulares que o cercam.

Desde a filosofia antiga até o período atual, notamos a pertinência de certas questões que, mesmo passando por certas mutações em suas formas, não deixam de ocupar nossa atenção enquanto investigadores da natureza do conhecimento humano. Lembremos que essas questões podem se colocar da seguinte maneira: ‘Como obtemos um conhecimento verdadeiro sobre o mundo?’ e ainda, de uma maneira um pouco mais radical, ‘Como poderíamos obter um conhecimento verdadeiro sobre nós mesmos?’.

Certamente a filosofia, a Teoria do Conhecimento, a Filosofia da Ciência ou a Filosofia da Mente, de modo geral, nos forneceram uma série bastante grande de possíveis respostas; basta lembrarmos os posicionamentos do realismo ao ceticismo, do racionalismo ao empirismo, do positivismo lógico ao falsificacionismo e do dualismo ao materialismo; nenhum deles, contudo, ficou imune às críticas.

A contemporânea discussão sobre os possíveis processos que subjazem o que entendemos por mental é uma atualização das questões mencionadas há pouco. Vemos um grande esforço por parte da filosofia atual e por parte das ciências interdisciplinares em nos fornecer respostas convincentes às questões que ficaram em aberto por séculos, principalmente por meio de uma compreensão do que seja o mental. Este esforço preconizou o aparecimento da ciência cognitiva. Esta nova ‘ciência’ possui a franca estratégia de tentar unir os trabalhos realizados por diversas disciplinas científicas, de modo a criar um diálogo entre elas, somando a isto a crítica fornecida pela filosofia da mente.

Muito do que a ciência cognitiva é atualmente se deve à busca de um ideal que poderíamos designar como o Ideal Da Unidade Metodológica Da Ciência. Desde Descartes, percebemos a busca por esse ideal em sua proposta de um método investigativo apresentado, como pudemos ver, nas Meditações e no Discurso do Método. O conhecimento possui, em Descartes e na tradição filosófica que se seguiu a ele, a característica de poder ser examinado por um único instrumento, a Razão. O filósofo Francis Bacon também possuía pretensões de alcançar uma unidade metodológica, porém, neste caso, o conhecimento só poderia ser obtido, honesta e verdadeiramente, por meio de uma abordagem empírica. Depois de Bacon, somente as ciências que se utilizassem deste tipo de abordagem poderiam ser consideradas como as ‘verdadeiras ciências’.

Auguste Comte acreditava que, somente no que ele chamou de Estado positivo, a sociedade poderia começar a realmente caminhar numa verdadeira progressão em direção ao desenvolvimento do conhecimento. Neste Estado positivo as ciências naturais ocupam a posição de detentoras do único saber verdadeiro, pois possuem um método válido de investigação: o método empírico. Para Comte, tudo o que fora disto, do método empírico, representava um dos dois momentos que antecederiam o Estado positivo que, como se sabe, são o Estado teológico e o Estado metafísico. De qualquer forma, como não pode haver momento de mais glória para o conhecimento do que aquele obtido com o Estado positivo, não haveria porque não dar, ao método de investigação empírica, o mérito de único método válido.

Comte legou sua filosofia positiva ao Círculo de Viena, que floresceu na década de 30 deste século. Seus integrantes queriam uma ciência que privilegiasse o conhecimento obtido quantitativamente por meio de observações e de medições, o que implicaria numa redução de todo o conhecimento a uma espécie de fisicalismo. Sendo ou não uma boa herança filosófica, foi isto o que ficou dos neopositivistas do Círculo de Viena: um projeto de unificação metodológica das ciências em torno do eixo criado pelo vocabulário fisicalista das quantidades e dos recursos da moderna lógica matemática.

Deste breve histórico talvez não se possa afirmar, com toda segurança, que a ciência cognitiva tenha saído somente de Descartes, Bacon, Comte e de neopositivistas como Wittgenstein. No entanto, não há como fechar os olhos para este passado. Parece ser uma constante na história da filosofia, uma tendência observada já no período dos gregos e que perdura em nossos tempos, a de uma disputa sobre o que é o conhecimento e a forma como apreendê-lo. Isto é, uma disputa por uma única filosofia, por um conhecimento unificado, pela conquista do instrumento que possibilite a apreensão total de tudo que seja inteligível, ou seja, daquilo que é suscetível de ser compreendido em termos racionais. Na história da filosofia percebemos momentos em que tal instrumento parece ter sido encontrado e, no entanto, no momento seguinte, começamos a achar que o inteligível se nos apresenta pouco satisfatório.

Com o filósofo Descartes, vivemos um momento de ampliação do inteligível; a Razão serviu de poderosa lanterna clareando mesmo a mais densa escuridão jamais encontrada. Desde Comte, no entanto, passamos a ver a filosofia com outros olhos: como algo que tivesse perdido seus antigos encantos. A ciência passou, então, a ocupar o lugar da filosofia como legítima ferramenta para a obtenção do conhecimento. Quando já no início deste século, com os neopositivistas do círculo de Viena, isto se consolidou ainda mais, toda filosofia que não estivesse à sombra do positivismo lógico era considerada metafísica e deve-ria ser banida.

Desde então, a naturalização do conhecimento se tornou a razão de ser de cientistas e de muitos filósofos ligados à ciência. O inteligível, em termos do conhecimento científico, passou a ser aquilo que pode ser medido e quantificado. Isto eqüivale a dizer que enfrentamos um momento, da história da filosofia, de redução do que pode ser legitimamente considerado como ‘Inteligível’. Porém vivemos, exatamente por essa redução, a expectativa de uma rápida ampliação desse ‘inteligível restrito’ para algo maior, na medida em que, é certo, esta redução possa nos fornecer uma base sólida para o prosseguimento de nossas incursões no campo do conhecimento.

Atualmente, no Brasil, encontramos vários centros de pesquisa interdisciplinar em ciência cognitiva e filosofia da mente funcionando a todo vapor. Estes centros se encontram nas principais Universidades brasileiras, como a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a USP (Universidade de São Paulo), a UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), entre outras. Cabe destacar que na UNESP (Universidade Estadual Paulista), mais precisamente no Departamento de Filosofia em Marília, podemos encontrar pesquisadores das mais diversas áreas se correlacionando sob o emblema da Ciência Cognitiva. As pesquisas produzidas neste centro recebem e oferecem colaboração de outros centros do Brasil inteiro, incluindo de outros países como Canadá, Estados Unidos, França, Inglaterra, Alemanha, constituindo, portanto, um centro de pesquisa de ponta no território nacional. Assim, a Filosofia se faz presente nos dias atuais, no Mundo e em nosso país, de maneira bastante atuante, pertinente e forte.