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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Comunicação, Expressão, Iconografia...

Á informação, como já dissemos, é a condição de possibilidade da comunicação e, portanto, a matéria-prima do conhecimento. Já vimos como ela se coloca a meio caminho entre o totalmente distinto e o idêntico, como ela necessita de padrões mais ou menos consolidados para ser absorvida e, também, como ela se torna dependente dos sujeitos criativos, que são capazes de perceber, numa certa desordem, uma nova organização emergente que desloca objetos, pessoas e idéias.

Mas qual é, afinal, o meio ambiente da informação? Ela estaria apenas em nossas mentes ou se encontraria efetivamente no mundo que rodeia o sujeito que quer absorvê-la? Uma resposta definitiva a esta pergunta não é fácil. Mas podemos tentar pequenas respostas parciais que nos dêem algumas dicas. Sabemos que o conhecimento é algo bastante íntimo. Muitas vezes, sabemos algo e sentimos uma tremenda necessidade de contar para alguém, mesmo que essa pessoa não esteja interessada. Outras vezes, falamos com nossos próprios botões a respeito de um vizinho, de algo que se viu na televisão ou na escola. Por que fazemos isso se não há ninguém escutando? Não seria suficiente apenas pensar? A resposta é não.

Percebemos as coisas a nossa volta, como a chuva, por exemplo, ou observando-a cair ou sentindo-a molhar o nosso cabelo ou ouvindo os pingos que caem no chão quando estamos prestes a dormir em nossas camas. Um pensa- mento um pouco indefinido sobre todas estas percepções nos vêm à mente, mas isto não é o conhecimento final do evento Chuva. Então dizemos: “Está chovendo”, deste jeito consolidamos o fato de que chove lá fora.

Quando bebês, aprendemos a falar antes de consolidarmos nossas complexas teorias sobre a Lua, ou sobre o palhaço pendurado no alto do berço. Dizemos “Ága” (água), “Páa” (pai) ou “Mãa” (mãe), então um líquido que sacia a sede aparece, ou dois seres gigantes nos protegem e nos alimentam. Sentimos que existe algo de mágico nestas palavras. E todas elas começam com o som indefinido do choro. Depois, ampliamos um pouco mais nosso vocabulário com as palavras “Xixi”, “Auau” etc, e percebemos que elas variam muito pouco de pessoa para pessoa. Descobrimos que elas podem ser usadas como veículos daquelas coisas que nos acompanham desde muito cedo, a saber, os nossos desejos e frustrações.

Deste jeito, começamos exprimindo o desconforto da fome e do frio e acabamos discorrendo longamente acerca da condição humana. Houve alguma grande mudança em nossos seres daquele primeiro momento até este último? De fato, não muita. Houve um grande aumento na complexidade no uso dos signos que chamamos de palavras, também houve um aumento na capacidade de memorizá-las, assim como os seus significados que são, às vezes, bastante longos. No entanto, o desconforto da fome e do frio continuaram a ser expressos por meio desses signos, mesmo que de maneiras um tanto diferentes.

Portanto, começamos a nos expressar para tentar alterar as condições ambientais que nos rodeiam, de modo a torná-las favoráveis ao nosso estado de espírito atual. Em seguida, percebemos que este estado de espírito se complexi esperou ficou. Começamos a sentir raiva, amor, tédio, preguiça, angústia, pânico etc. Em alguns momentos, sentimos que as palavras não são suficientes, ou por demais lentas, para exprimir estas idéias e criamos outros símbolos que agilizam a absorção da informação ou a comunicação.

Estes símbolos, que também podemos chamar de ícones, garantem a transmissão de uma idéia uma vez que os sujeitos que os usam estejam familiarizados com o contexto em quem estejam inseridos. O contexto é o conjunto de pessoas, lugares, momentos e situações que fornecem conteúdo ou significado ao ícone (símbolo ou signo). Assim, por exemplo, para se entender o que diz uma placa do tipo: É preciso estar familiarizado, em primeiro lugar, com as regras de trânsito. Mas isto não é o suficiente, também é necessário que este ícone não apareça em lugares como em um beco sem saída ou em uma casinha de cachorro ou dentro de uma banheira.

Parte da resposta que queríamos já se anuncia. A informação é fruto de nossa capacidade de contextualizar os diferentes ícones que nos rodeiam, inserindo-os nos ambientes em que cada um deles faz sentido. O sentido de cada símbolo, a informação que ele sugere, depende da quantidade de informações prévias que o sujeito obteve em toda a sua vida. Provavelmente, quanto maior for a vida do sujeito, ou quanto maior for o número de suas experiências, também maior será sua capacidade de perceber sentidos, significados, conteúdos, também maior será sua capacidade de absorver mais informação e de se comunicar melhor.

Mas a informação está dentro ou fora de nós? Ela brota fora do sujeito, impregnando o ícone com uma porção de idéias? Vamos imaginar que o ícone é como uma ratoeira armada, toda a tensão da mola está prestes a disparar, mas a ratoeira não dispara sozinha. Quando um pequeno rato desavisado cheira o queijo e abocanha a refeição “grátis”, então é aí que a força armazenada pela mola avisa que aquela comida era mais cara do que pensava o pobre ratinho.

Igualmente, a placa de trânsito, ou a de ‘paz e amor’, ou a da ‘pomba da paz’, ou a das ‘olimpíadas’ não funcionam sem um sujeito que a observe. Contudo, toda a idéia está lá em potência, armazenada, esperando. Como a mola complexi-esperou nosso rato. O sujeito se aproxima e a observa. O sujeito é o rato. Ele ‘mexe no queijo’ quando associa a placa a muitos outros momentos, pessoas e situações em sua memória, quando ele a contextualiza. Se ele tiver ‘força’ (experiências o suficiente) para ‘mexer o queijo’, então a placa ‘dispara’ (faz sentido, é informativa).

Como se vê, parte da informação deve estar do lado de fora do sujeito, em potência, nos diversos signos que se espalham pelo mundo. Mas a informação só aparece de fato quando alguém interpreta estes signos e lhes confere significado. Então, parte dela também deve estar na capacidade de memorizar, na de perceber e na de associar. Todas estas habilidades são inerentes ao sujeito e não as encontramos por aí espalhadas pelo chão. Algumas vezes, os ícones são como ordens, como as placas de trânsito; outras vezes, são como idéias, como a cruz para os cristãos, a estrela de Davi para os judeus. Em alguns momentos, os ícones representam nações como as bandeiras dos países. Mas também podem apontar comportamentos como os de James Dean ou de Elvis Presley. Também podem indicar ideais de beleza, como as modelos nas passarelas. Há muitas formas e funções diferentes para os ícones, mas nossa maneira de os interpretar obedece sempre o mesmo padrão, a saber, o de observação e o de contextualização.

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O carneiro do pequeno príncipe

(...) Preciso de um carneiro. Desenha-me um carneiro.
Então eu desenhei.
Olhou atentamente e disse:
— Não! Esse já está muito doente.
Desenha outro.
Desenhei de novo.
Responder Voltar à questão Anterior
Meu amigo sorriu com indulgência:
— Bem se vê que isto não é um carneiro. É um bode...
Olha os chifres...
Fiz mais uma vez o desenho.
Mas ele foi recusado como os precedentes:
— Este aí é muito velho. Quero um carneiro que viva muito.
Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado.
E arrisquei:
— Esta é a caixa. O carneiro está dentro.
Mas fiquei surpreso de ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz:
— Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro?
— Por quê?
— Porque é muito pequeno onde eu moro...
— Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada!
Inclinou a cabeça sobre o desenho:
— Não é tão pequeno assim... Olha! Adormeceu... (...)
                                                                                         (Antoine de Saint-Exupéry, O pequeno príncipe).

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Comunicação...

Nenhum ser humano está inteiramente sozinho no mundo. Ainda que procurássemos, a todo custo, nos distanciar das outras pessoas, não o conseguiríamos. O mundo em que vivemos hoje concretizou fortes relações entre os países, entre as escolas, entre as empresas, entre os povos. Isso se realizou de tal modo que tornou-se impensável, nos nossos dias, não trabalhar, ou não estudar, ou simplesmente se isolar das diversas maneiras de se integrar na sociedade.

Isto ocorreu, basicamente, porque desenvolvemos a capacidade de nos percebermos mais fortes desta maneira. A formação dos grupos organizados de pessoas propicia a geração de um novo organismo que é capaz de realizar tarefas que o indivíduo, em seu esforço isolado, não consegue. Este novo organismo, que aparece da união inteligente entre as pessoas, pode receber vários nomes: Família, Estado, Nação, Instituição, Clã, Sindicato, Irmandade etc.

Para que haja a união das pessoas em grupos de trabalho, de estudo, de lazer, de culto, é necessário, antes de tudo, um acordo mútuo, um pacto, que junte as vontades particulares numa única e grande vontade. Este pacto tem que estar manifesto, isto é, todos têm que tomar conhecimento de seus detalhes, de suas regras, de seus objetivos. Neste momento, a comunicação é imprescindível. Assim, se perguntássemos o que os seres humanos têm em comum com as abelhas, com as formigas ou mesmo com os cupins, poderíamos responder imediatamente dizendo que é a habilidade de se fazer entender por seus semelhantes, criando a possibilidade da organização destes em classes, escalas, hierarquias, graus, ordens etc.

Sem que haja uma ligação entre os indivíduos, a comunicação entre eles não seria possível ou, se fosse, o seria de maneira muito deficiente e não permitiria a extrema especialização e organização atingidas pelas sociedades, seja das abelhas, seja das formigas, seja dos humanos.

Toda comunicação começa com, pelo menos, dois sujeitos: um Emissor, ou aquele que emite uma mensagem, e um Receptor, ou aquele que se encarrega de captar a mensagem.

O Emissor deve ser hábil o bastante para realizar o ato de sinalizar (emitir sinais) para além de si mesmo, isto é, para o mundo à sua volta, seja falando, ou batendo com um ferro em outro, ou digitando, fazendo mímicas, colocando uma pedra em cima da outra, ou de um milhão de outras maneiras. Os sinais são, portanto, qualquer símbolo, signo ou regularidade que é deixada na natureza para servir de marca para ser interpretada.

E é aqui que começa o trabalho do Receptor sendo, talvez, o mais difícil deles. O Receptor deve, portanto, possuir a habilidade de perceber, memorizar e comparar estas marcas deixadas na natureza pelo Emissor. Destas três habilidades, a última (a comparação) é a que exige um esforço maior, pois envolve as duas primeiras. Ninguém seria capaz de comparar o que quer que fosse se não pudesse perceber as coisas para poder justapô-las, medi-las, contá-las, verificá-las. Também ninguém saberia fazer nada disso se não pudesse lembrar-se, nem mesmo, o que são os sinais.

O ato da comunicação, portanto, é um ato complexo. Envolve sempre mais de uma pessoa. E os papéis de Emissor e Receptor se invertem constantemente entre os sujeitos que se comunicam. Uma vez que o sinal é comparado pelo Receptor, ele gera um outro sinal, passando a ser ele mesmo, também, um Emissor. Por sua vez, aquele que antes ocupava o papel de Emissor, passa a exercer o papel de Receptor, interpretando o sinal recém emitido. Só quando este círculo entre o Emissor e o Receptor se fecha é que se pode dizer que houve o ato da comunicação.

A Informação, que é aquilo que mais se deseja em toda e qualquer comunicação, pode aparecer ou não, dependendo da boa execução da emissão os sinais e da tradução destes. Traduzir é, portanto, a ação de perceber, memorizar, comparar e emitir outro sinal que corresponda em algum sentido ao que foi recebido de início.

Toda comunicação passa por estágios que são, de alguma maneira, diferentes uns dos outros, mas estes estágios não têm suas fronteiras nitidamente separadas. Elas se superpõem.

Imitação

Temos um estágio inicial no qual o emissor e o receptor se relacionam copiando ou imitando reciprocamente os sinais emitidos, numa tentativa incipiente de memorização e comparação por meio da repetição.

Esta comparação por imitação gera pouca, ou quase nenhuma, tradução. Se aparecer a informação, neste caso particular de comunicação, esta terá um grau mínimo que é muito baixo. Por exemplo: o papagaio que repete as palavras de seu dono, ou a criança que se veste com as roupas dos pais.

Reprodução

Já num segundo momento, há a inserção de elementos novos no momento da tradução. Estes novos elementos tentam condensar, ou resumir, a idéia percebida; de tal modo que a tradução aparece como uma re-produção daquilo que foi emitido originariamente. Neste momento também existe uma cópia dos sinais, mas esta cópia apare-ce como que resumida, ou facilitada. No caso da reprodução, surge informação num grau mais elevado que no da imitação, pois o emissor e o receptor conse-guiram gerar uma tradução que não apenas repete os sinais originários, mas os modifica para alcançar um fim prático. Por exemplo: um livro que descreve um quadro de um pintor famoso, uma foto, uma mensagem em código, uma teoria científica.

Expressão

Chegamos ao terceiro e último momento, o da expressão, em que a comunicação exibe todo o seu poder. Ou seja, neste momento o Receptor se torna também um Emissor de sinais totalmente distintos daqueles que ele recebeu. No entanto, estes sinais novos devem, ainda, guardar uma certa referência ao que foi sinalizado de início. Aqui a criatividade aparece de maneira bastante forte e a cópia deixa apenas uma leve lembrança. Por exemplo: cada um dos quadros que Picasso pintava em suas fases mais adiantadas era um tipo de resposta ao mundo que o cercava. Estes quadros eram absolutamente originais, isto é, se diferenciavam
muito dos objetos que eles retratavam, no entanto continuavam fazendo uma referência extremamente  inusitada a eles.

Comunicação:

Emissor /Sinal – Informação - Sinal /Receptor

As primeiras palavras

Não me ensinaram a falar [os mais velhos] apresentando-me as palavras com certa ordem e método, como logo depois fizeram com as letras; mas foi por mim mesmo, com o entendimento que me deste, meu Deus, quando queria manifestar meus sentimentos com gemidos, gritinhos, e vários movimentos do corpo, a fim de que atendessem a meus desejos; e também ao ver que não podia exteriorizar tudo o que queria, nem ser compreendido por todos aqueles a quem me dirigia.

Se os adultos nomeassem algum objeto e, ao fazê-lo, se voltassem para ele, eu percebia isto e compreendia que o objeto fora designado pelos sons que eles pronunciavam, pois eles queriam indicá-lo. Mas deduzi isto dos seus gestos, a linguagem natural de todos os povos, e da linguagem que, por meio da mímica e dos jogos com os olhos, por meio dos movimentos dos membros e do som da voz, indica as sensações da alma, quando esta deseja algo, ou se detém, ou recusa ou foge.

Assim, aprendi pouco a pouco a compreender quais coisas eram designadas pelas palavras que eu ouvia pronunciar repetidamente nos seus lugares determinados em frases diferentes. E, quando habituara minha boca a esses signos, dava expressão aos meus desejos.

Foi Assim que comecei a comunicar meus desejos às pessoas entre as quais vivia, e entrei a fazer parte do tempestuoso mundo da sociedade, dependendo da autoridade de meus pais e obedecendo às pessoas mais velhas.

Sto. Agostinho, Confissões

Regras e Significado

Sto. Agostinho não fala de uma diferença entre espécies de palavras. Quem descreve o aprendizado da linguagem desse modo, pensa, pelo menos acredito, primeiramente em substantivos tais como “mesa”, “cadeira”, “pão”, em nomes de pessoas, e apenas em segundo lugar em nomes de certas atividades e qualidades, e nas restantes espécies de palavras como algo que se terminará por encontrar.

Pense agora no seguinte emprego da linguagem: mando alguém fazer compras. Dou-lhe um pedaço de papel, no qual estão os signos: ‘cinco maças vermelhas’. Ele leva o papel ao negociante; este abre o caixote sobre o qual encontram-se o signo ‘maças’; depois, procura numa tabela a palavra ‘vermelho’ e encontra frente a esta um modelo da cor; a seguir, enuncia a série dos numerais — suponha que a saiba de cor — até a palavra ‘cinco’ e a cada numeral [enunciado] tira do caixote uma maçã da cor do modelo. Assim, e de modo semelhante, opera-se com palavras. Mas como ele sabe onde e como procurar a palavra ‘vermelho’, e o que vai fazer com a palavra ‘cinco’?

Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas